Graves, melódicos e agressivos: O contrabaixo na história do Metallica

Introdução

Sabe aquela antiga convenção do baixista paradão no fundo do palco quase como um sideman? Aquele padrão meio John Entwistle do cara que assume totalmente a responsabilidade sonoramente mas deixa o papel de “showman” para o vocal, guitrrista ou até mesmo batera (incrível que o The Who tinha três presenças de palco monstruosas, mas ok, o assunto não é esse)? Bem, esse padrão definitivamente nunca foi do feitio do Metallica.

A máquina de Thrash de Los Angeles é uma escola de baixistas enérgicos, explosivos e técnicos. Do saudoso Kill ‘Em All até o recente Hardwired… To Self-Destruct, os trabalhos de grave são feitos com primor, técnica e claro, especialmente, agressividade.

A influência dos baixistas do Metallica no Roots Metal

Todo baixista de metal nos dias atuais, indireta ou diretamente, passou por influências do Metallica. Não tem como fugir. No coletivo, posso falar de mim com certeza.

Como vocês vão perceber no texto, eu sou absurdamente fã do Cliff e do Jason. E essa admiração reverbera muito nos palcos durante os shows da Carminium. A Hellming, só por ser uma banda de Thrash já carrega altas doses de influência dos baixistas de Metallica no som. A Sagittarion, por levantar aquela bandeira de um metal mais velha guarda, também bebe da fonte dos graves de Cliff Burton e cia.

Ron McGovney

Estilera foda

Amigo de longa data de James Hetfield e seu companheiro no Leather Charm (uma das primeiras bandas do Jaymz), Ron McGovney foi o primeiro baixista do Metallica. Ron integrou o time que já contava com seu antigo parceiro e com o dinamarquês baixinho esquisito, o Lars Ulrich, no ano de 1981.

Apesar da importância histórica para a linha do tempo e pela estrutura nos primeiros anos (afinal, a casa dele era o QG do Metallica, basicamente) da banda, Ron não chegou a desenvolver muito as suas capacidades musicais com o Metallica. Esteve presente na segunda prensagem do primeiro registro em estúdio gravado, a versão de Hit The Lights que entrou para o volume 1 da coletânea Metal Massacre e nas primeiras demos (inclusive a “No Life ’til Leather”, queridinha dos fãs como eu). Nada mais que isso.

Na real, a verdade é que o Ron nunca se sentiu totalmente solto como baixista do Metallica. E essa sensação de deslocamento se tornava mais crítica pelo convívio super complicado com o então guitarrista solo da banda, um tal de Dave Mustaine (conhecem?). Em uma situação específica, Ron levou um puta choque após ligar o baixo que estava completamente encharcado de cerveja. Acho que já devem imaginar quem, mais doido que o Batman, derrubou a bebida no baixo do amigo.

Com esse choque de personalidades rolando, a saída de Ron era apenas uma questão de tempo que se concretizou no ano de 1982. No entanto, Lars e James já tinham um nome em mente e bem engatilhado para substituir Ron e, talvez, quem sabe, entrar para a história. Bass solo, take one.

Cliff Burton

Eu considero o Cliff Burton um Deus. Falando quase que de forma literal. Mas ok, vou tentar deixar o lado ídolo para escanteio e ser um pouco mais…. informativo. 

Cliff Burton era um demônio. Técnico até dizer chega, apaixonado por música de uma maneira geral. Ele era aquele tipo de pessoa que pirava ouvindo sua banda favorita, o Misfits, e poucas horas depois se encontrava admirando a beleza de uma peça erudita de Bach. Cliff era, acima de tudo, um músico de corpo, alma (e cabelo). 

A história dele com o Metallica começou no ano de 1982, quando sua banda na época, a Trauma, tocou no lendário Whisky A Go Go, em Los Angeles. Por coincidência ou não, James e Lars estavam na platéia naquela noite. Abismados com os solos daquele baixista doido que batia a cabeça de forma totalmente descompassada e caótica e tocava igual um djanho, aquele cara parecia ser a pessoa certa para o posto de novo baixista do Metallica. 

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Até houve um flerte. Papinho vai, papinho vem, “minha banda tá ficando popzinha demais” para cá, “tamo querendo expulsar o baixista da nossa para lá”. Mas de início, ficou por isso mesmo. Cliff era de São Francisco e não queria se mudar até Los Angeles, base do Metallica, para integrar a nova banda. E na boa, para vocês perceberem como a figura do Cliff foi importante desde o início para o grupo: James, Lars e Dave se mudaram de estado só para contarem com o cara no time. Gados demais (mas quem não seria?). 

Na primeira metade de 83, a banda lançou o primeiro trabalho com Cliff, a demo Megaforce que contava com duas faixas inéditas, Whiplash e No Remorse (que só tinham sido registradas até então na live Metal Up Your Ass!). Ainda nesse ano, o primeirão e totalmente agressivo Kill ‘Em All foi lançado. Nesse primeiro momento, Cliff não teve tanto espaço nas composições do álbum, visto que a maioria das músicas já estavam bem encaminhadas quando entrou para a banda. Mesmo assim, deixou uma pequena amostra de sua genialidade com um solo de baixo (SIM, UM SOLO E BAIXO EM UM LP!) icônico que costumava tocar nos shows desde seus tempos de Trauma, a hipnótica “(Anesthesia) Pulling Teeth”. 

Foi no segundo álbum, Ride The Lightning de 84, que Cliff de fato se assentou como o genial e saudoso baixista do Metallica. Com mais liberdade criativa,  ele criou linhas icônicas que permanecem até hoje como clássicos absolutos. For Whom The Bell Tolls, talvez a maior marca registrada dele como baixista do Metallica, é uma dessas músicas que tornaram-se lendárias. Em Bell Tolls, Cliff trouxe um riff de baixo (que mais parece uma guitarra  pelo uso do fuzz + wah) memorável e diferente de tudo que tinha sido feito no Thrash Metal https://rootsmetal.com/wp-admin/post.php?post=1099&action=edit até aquele momento. 

Se o Ride The Lightning foi o momento que que Cliff se estabeleceu como baixista do Metallica, foi no Master Of Puppets, 86, que ele se tornou não apenas um mito, mas um mártir. Os trabalhos de baixo desse álbum são, para dizer o mínimo, memoráveis. Encontramos nesse trabalho linhas que ora acompanhavam os riffs ferozes de James Hetfield com maestria, ora se destacavam sozinhas com frases soltas dignas de um gênio. Desde o pizzicato ultra veloz de Battery até aquela linha digna de tirar lágrimas de marmanjos barbudos (leia-se “eu”), tudo é ouro, tudo é nível de um cara diferenciado e vou parar que acho que já tô tietando muito. 

Santificado seja o vosso nome

E temos aqui também o canto do Cisne de Cliff Burton, a maravilhosa faixa instrumental “Orion”, música que ele nos brinda com todo o seu virtuosismo e genialidade. E aquele interlúdio…… aquele interlúdio.

Morte e legado de Cliff Burton

Foi no dia 27 de setembro de 1986 que a música perdeu um de seus maiores filhos. A morte de Cliff Burton é até hoje envolta de mistérios e questões não tão bem explicadas.

A banda estava voltando de um show na Suécia da tour Damage Inc. quando o ônibus simplesmente capotou. Ninguém sabe se o motorista dormiu, se estava embriagado ou algo do tipo. Só sabemos que antes do acidente houve um jogo de cartas valendo uma noite no beliche de cima, o mais confortável do ônibus. Cliff ganhou o jogo, tirando o ás de espadas e ficando com a cama que era de Kirk Hammett. E foi justamente a cama que voou para fora do ônibus quando o mesmo capotou.

Não preciso nem dizer o impacto que essa perda representou para a banda. O Cliff era muito mais que o baixista do Metallica. Ele, por ser um pouquinho mais velho que os outros integrantes, assumia uma postura de mentor. O cara que trilhava o caminho e e chamava a responsabilidade tanto musicalmente quanto no convívio quando era necessário.

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Eu acho que posso dizer que o Metallica não teve o tempo necessário para passar o luto. Poucas semanas depois da tragédia, o show continuou e os três remanescentes davam início ao processo de seleção do novo baixista. Processo esse que contou até com a presença do grande Les Claypool.

E esse curto espaço de tempo entre o ocorrido na Suécia e a volta às atividades talvez tenha sido a tônica para a tratativa meio… torta (?) que os membros trataram o novo cara. Seja bem vindo, Newkid.

Jason Newsted

Quem já viu algum show da Carminium e conhece Metallica deve ter percebido que o baixista da banda (vulgo Eu) rouba muitas influências do Jason Newsted, desde presença de palco até forma de se vestir. Então pode esperar muita babação de ovo por aqui também. Jason, juntamente com o já citado Cliff Burton e com Glenn Hughes, é uma das minhas maiores inspirações.

O lance do Jason Newsted no Metallica é aquela velha história do garoto que era fã de uma banda até que certo dia ele simplesmente é convidado para tocar nela (quem já viu o filme Rockstar tá ligado).

Antes de superar 29 músicos concorrendo ao posto de novo baixista do Metallica, Jason tocava na banda de Thrash Metal https://rootsmetal.com/wp-admin/post.php?post=1178&action=edit Flotsam And Jetsam, tendo gravado o debút com os caras ainda.

No Metallica, arrisco dizer que o Jason foi muito mais um baixista de palco do que de estúdio. Sério, só você ver aquela live em Seattle de 89 que consegue perceber com perfeição que ele não é apenas um músico que toca ao vivo. Ele é um músico que nasceu para tocar para multidões, que entregava em cada show um atuação enérgica e com muita fibra. Com aquela alma de frontman (mesmo sem ter oficialmente essa posição), Jason deu vida e sangue para músicas já consagradas pelo mestre Cliff Burton. Um exemplo intocável são as execuções de Creeping Death com os clássicos backing vocals de “DIE! DIE! DIE! MOTHERFUCKER DIE” sendo brandidos com ódio, coração e visceralidade por Jason. De arrepiar.

Agora vamos fazer o exercício mental de empatia/se colocar no lugar do amigo: o cara caiu de paraquedas em uma banda em ascensão no meio de uma turnê substituindo alguém que até então era insubstituível. Essa situação pouco confortável, inclusive, acabou abrindo as portas para praticamente 15 anos interruptos de bullying e humilhações. Começando pelo cartão de visita onde na primeira tour da banda no Japão, o Kirk Hammett apontou para um pote cheio de Wasabi e falou: “JASON, SORVETE DE MENTA! COMA!”. E o coitado comeu tudo. Bem, isso é só a ponta do iceberg.

A questão aqui é que o Jason foi injustiçado e sabotado em vários sentidos pela própria banda que tocava. E a demonstração cabal dessa injustiça, ironicamente, aconteceu nas famosas gravações do sucessor do Master Of Puppets, o “…And Justice For All” http://g1.globo.com/musica/noticia/2016/11/hardwired-self-destruct-metallica-mostra-forca-mas-peca-pelo-excesso.html de 88 que simplesmente tinha o baixo inaudível na edição final do álbum. Sim, cortaram o o baixo do álbum e até hoje ninguém sabe o motivo específico e exato. Só sabemos que foi uma puta sacanagem. Mas, como a internet é maravilhosa, temos uma edição do álbum chamada “…And Justice For Jason” que teve as faixas de baixo aumentadas, provando por A+B que o trabalho do Jason no Justice foi louvável. Apesar de ter aquele estilão de acompanhar mais os riffs de guitarra, é de se espantar a velocidade da palhetada e o ataque na pegada do cara.

No Black Album finalmente conseguimos notar oficialmente os dotes de menino Jason em estúdio. Ele entregou uma performance de gala com direito a duas introduções de baixo: My Friend Of Misery (que originalmente seria uma instrumental composta por ele) e The God That Failed. No entanto, infelizmente o espaço criativo dentro da banda era muito limitado. James e Lars basicamente monopolizavam as composições. Ele até levou crédito de co-compositor em “Where The Wild Things Are” e lançou uma intro de baixo foda em “Devil’s Dance”, ambas do Reload, 97, mas nada que valorize sua criatividade musical como baixista do Metallica. Uma pena, pois ficou mais do que nítido em seu projeto solo de 2013, o Newsted, a competência do cara.

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Depois de 15 anos sendo humilhado e menosprezado no próprio ambiente de trabalho, o estopim veio quando James tentou impedir que Jason seguisse em seu projeto paralelo, o Echobrain, e continuasse 100% com a atenção no Metallica. Jason saiu sem muitos créditos criativos, mas conquistando espaço cativo no coração de muitos fãs que até hoje sentem falta daquele headbanging extremo e daqueles backing vocals demoníacos em Creeping Death ou Whiplash.

Robert Trujillo

Você já parou para pensar que, considerando o tempo na banda, Robert Trujillo foi o baixista do Metallica que mais permaneceu no posto? E isso não é por menos. Nosso querido Rob é um dos baixistas mais competentes e técnicos de sua geração.

Sim, confesso que sou do time “Burton no céu, Newsted na terra” e adoraria ver o Jason com a banda. Mas não posso negar que o Roberto conquistou com muito merecimento o espaço praticamente intocável que conseguiu no Metallica hoje em dia.

Acho que acima de um up musical, Rob representou muito também questão moral da banda. Quando entrou no Metallica em 2003, tava rolando maior climão nos bastidores. Climão esse que foi plano de fundo para a gravação do álbum “St. Anger” (que teve o baixo gravado pelo produtor Bob Rock) e a filmagem do documentário Some Kind Of Monster. Problemas resolvidos pela metade, saída do Jason, James na rehab, limpeza de roupa suja com Mustaine. Enfim, as coisas não esavam bem.

E a entrada do Rob foi como um sopro de novos ares no horizonte da banda. Mais do que sangue novo, Trujillo foi uma peça fundamental para a reconexão entre os membros fundadores que havia sido perdida desde sei lá, antes do Load.

Rob era um velho conhecido da banda. Já tocou com grandes medalhões do rock. Suicidal Tendencies, Black Label Society, Ozzy e o projeto solo do Jerry Cantrell carimbam o currículo que foi enviado pro RH de James e Lars.

Seu estilo de tocar, mais próximo de Cliff Burton do que de seu antecessor, é aquele pizzicato rápido, cheio de pressão e pegada. Mesmo tocando com os dedos, Rob consegue um punch absurdo e um timbre de baixo muito característico.

Como baixista do Metallica, Trujillo gravou dois álbuns: “Death Magnetic” de 2008 e “Hardwired… To Self-Destruct” http://g1.globo.com/musica/noticia/2016/11/hardwired-self-destruct-metallica-mostra-forca-mas-peca-pelo-excesso.htmlde 2016 (vamos esquecer que o Lulu http://miojoindie.com.br/disco-lulu-lou-reed-metallica/ existiu. Para todos os efeitos, ele não é um álbum do Metallica, ok?). E nesses dois álbuns entregou resultados maravilhosos que atestam toda sua técnica. O épico instrumental “Suicide & Redemption” atesta todo o seu valor como músico.

Em palco, Trujillo tem uma presença, digamos que…. peculiar. É aquele negócio: tem gente que critica, mas eu acho animal aquela forma meio gorilona que ele passeia com o baixo pelo palco. Rob nunca se propôs a imitar o estilo de nenhum de seus antecessores, e seu estilo totalmente próprio atesta. Fora que, digo com conhecimento de causa, é MUITO MANEIRO ver o doido girando com o baixo igual um peão na Seek And Destroy.

No mais, Rob está assumindo com muita honra e competência esse sagrado posto de baixista do Metallica.

Dentre as milhares de bonanças que o Metallica trouxe para o mundo do Metal, os baixistas que a banda ajudou a impulsionar com certeza estão entre os maiores feitos dos caras

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Matheus Campos

Quase historiador, entusiasta da obra de Edgar Allan Poe, tiete do John Mayer, hater de cadernos de paisagem e mágicos (nada pessoal) que acredita que "Girls Just Want To Have Fun" deve ser o hino da via láctea. Tenho uma foto com a Xuxa, curto uns filminhos do Ari Aster e tudo que eu faço é pela metade.

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